Autor: Narciso Castanheira, Elo gráfica, 1999.



Contextualização
Em 1992 a assinatura do Acordo Geral de Paz (AGP) em Roma entre o governo de Moçambique, representado pela Frelimo e a liderança da Renamo, colocou fim à guerra civil que durou 16 anos. Havia necessidade de assistência às pessoas, famílias e comunidades afectadas, especialmente as crianças que foram instrumentalizadas, usadas como soldados, como mão de obra e submetidas a todos tipos de sevicias. De imediato iniciaram programas de desarmamento e desmobilização de soldados governamentais e da guerrilha da oposição, patrocinados pelas Nações Unidas e Comunidade Internacional, que não contemplaram. No entanto, tais programas não contemplaram soldados e soldados e guerrilheiros com idades abaixo dos 18 anos, pois constituiria o reconhecimento da utilização de crianças em actos de violência militar, o que sempre foi recusado.
Para as crianças, seguiram programas de Apoio Psicossocial desenvolvidos por Organismos Oficiais, ONG´s, Organizações Comunitárias e Religiosas, dos quias destacamos:
- PLRF – Programa de Localização e Reunificação Familiar (Acção Social Governamental, Cruz Vermelha de Moçambique e Save the Children UK);
- “Brincar Curando” (Cruz Vermelha de Moçambique);
- “Circo da Paz” –Programa de Educação para a Paz (Unicef);
- Rituais tradicionais de purificação, perdão e reconciliação, promovidos por agentes de Medicina Tradicional e Religiosos.
Criação da ARES

A criação da ARES foi decidida após a realização 3º Congresso Internacional “Crianças, Guerra e Persecução – Reconstruindo a Esperança”, organizado por Moçambique e realizado em Maputo no ano de 1996.
Principais Actividades
Ainda que oficialmente criada em 1996, o historial da ARES iniciara em 1994, quando a AMOSAPU (Associação Moçambicana de Saúde Publica) acomodou o projecto proposto, “Assistência Psicossocial a Crianças ex-soldado”, acolhendo o grupo de profissionais de Saúde Mental proponente da iniciativa. O projecto decorreu na Ilha Josina Machel (Manhiça – Maputo) e Manjacaze (Gaza), tendo as actividades consistido basicamente em:
- Apoio à reintegração de crianças e jovens ex-soldados nas suas comunidades e famílias, oferecendo escuta psicanalítica e ajudando na elaboração das memorias traumáticas resultantes da exposição a violência;
- Apoio à criação de grupos de autoajuda e actividades de subsistência (agricultura, pesca, olaria e alfabetização);
- Envolvimento de outros agentes, como praticantes de Medicina Tradicional, Religiosos, Professores e Lideranças formais e informais;
Este modelo de intervenção permitiu a construção de uma escuta psicanalítica atenta aos potenciais de cura e mobilização de recursos próprios das culturas tradicionais moçambicanas.
Em 1996 após o 3º Congresso Internacional “Crianças, Guerra e Persecução – Reconstruindo a Esperança”, o grupo de trabalho da AMOSAPU que juntamente com parceiros nacionais e internacionais havia organizado o evento, decidiu tornar-se autónomo e constituir-se como “Associação Reconstruindo a Esperança – ARES”.
Prosseguindo com o projecto, em 1997 a ARES formalizou-se como uma agremiação “colectiva de direito privado, sem fins lucrativos, prosseguindo fins de natureza humanitária”, tendo como finalidade “contribuir na assistência psicossocial e desenvolvimento comunitário, garantindo desta forma a defesa dos direitos humanos, em particular das crianças e das mulheres”. Os objectivos principais da ARES seriam:
- A prevenção de traumas psicológicos decorrentes de conflitos originados por processos naturais, políticos e socioeconómicos e;
- Atendimento psicoterapêutico às pessoas vítimas de tais conflitos, com enfase para crianças e adolescentes.
Ainda no âmbito do projecto, no ano 1999 a ARES liderou um movimento cívico contra a integração de jovens ex-soldados no serviço militar obrigatório, defendendo o reconhecimento e a reparação da utilização de crianças como soldados durante a guerra civil e a não obrigatoriedade do recenseamento para estes.
Em reconhecimento a este trabalho, a ARES recebeu em 1999 o prémio “Human Rights Monitor Prize”, da Organização Human Rights Watch, nos EUA e posteriormente o Prémio da Paz da Cidade de Aachen, Alemanha.
Dando prosseguimento aos seus propósitos, sempre que necessário, a ARES levou a cabo intervenções de apoio psicossocial em eventos catastróficos, como as cheias que atingiram o sul do país no ano 2000 e explosão do paiol no bairro de Malhazine na periferia da Cidade de Maputo em 2007.
No ano de 2011 a ARES procedeu à tradução e adaptação cultural do projecto de prevenção de violência sexual contra crianças “Este corpo é meu”, traduzindo para as línguas Changane e Emakwa, implementado nas cidades de Maputo e Nampula. Até os tempos actuais, intervenções do projecto veem sendo solicitadas principalmente por escolas e organizações comunitárias.
De 2022 até o presente, em parceria com o ICDP, International Child Development Programme, a ARES desenvolve em Nacala-Porto um projecto de escuta psicanalítica para crianças e famílias ali acolhidas, após deslocamentos forçados em consequência da violência militar nas zonas de origem na província de Cabo Delgado. A intervenção abrange também crianças e famílias da comunidade de acolhimento, tendo em conta que estas, muitas em situação de vulnerabilidade, veem-se seriamente afectadas ao terem de repartir seus parcos recursos e confrontarem-se com variadas problemáticas decorrentes da situação.
Desde as convulsões pós-eleitorais e até o momento, em parceria com o Circulo Psicanalítico de Moçambique (CPM), Associação de Psicologia de Moçambique (APM), Comunidade Psicanalítica de Moçambique (Copsimo), a ARES vem incentivando a plataforma “Ombro Amigo, Ombro Solidário”, dinamizando sessões de reflexão e disponibilizando apoio a profissionais e pessoas afectadas pelos eventos, contando com a participação de profissionais moçambicanos e internacionais, principalmente do Brasil e Portugal.
Em finais do 2024 e inícios de 2025, respondendo as necessidades decorrentes da convulsão em curso, a ARES implementou o projecto “Promover a vida e cuidar da saúde mental das crianças em Nacala-Porto em tempos difíceis”, assistindo crianças e famílias afectadas pelos tumultos pós-eleitorais, o qual mereceu o Prémio IPA na Comunidade e no Mundo 2025, como primeiro classificado na categoria de “Assistência Psicanalítica em Emergências e Crises”.
Em 2025, em parceria com o Círculo Psicanalítico de Moçambique (CPM), a Sociedade Psicanalítica Portuguesa (SPP), a Federação Brasileira de Psicanalise (FEBRASPSI) e a Universidade A Politécnica, a ARES tem um papel activo na organização do VI Congresso de Psicanálise dos Países de Língua Portuguesa, subordinado ao tema “Como Se Fabrica A Guerra? Como Se Constrói A Paz?” que teve lugar na cidade do Maputo, Moçambique, entre 15 e 17 de maio de 2025.
A ARES participa também em parceria com o Círculo Psicanalítico de Moçambique (CPM), Associação de Psicologia de Moçambique (APM), Comunidade Psicanalítica de Moçambique (COPSIMO) e Universidade A Politécnica, na organização da IV edição do Congresso Internacional de Psicanálise “Crianças Guerra e Persecução” a ter lugar nos dias 14 a 16 de maio de 2026, em Maputo. Este congresso decorrerá sobre o lema “Revisitar Feridas, Reinscrever a Esperança”, tendo sido antecedido de um Pré-Congresso que teve lugar no dia 10 de maio de 2025.