
O Congresso Internacional de Psicanalise “Crianças, Guerra e Persecução – Revisitar Feridas, Reinscrever a Esperança” terá lugar nos dias 14, 15 e 16 de maio de 2026 em Maputo, Moçambique. Pretendemos que o congresso não se circunscreva apenas aos 3 dias de trocas científicas e técnicas, mas que seja uma ação coletiva iniciada antes do congresso e que se prolongue para alem deste evento, criando um impacto direto e significativo na proteção da criança em Moçambique.
Este evento ocorre num momento particularmente difícil para as crianças e adolescentes em Moçambique, mas também em outras partes do mundo.
Sem dúvida, o conflito militar que provoca a migração forçada, incluindo o deslocamento interno, como é predominantemente o caso no norte de Moçambique, é um dos maiores desafios para o bem-estar das crianças.
Por outro lado, este congresso inicialmente agendado para dezembro de 2024 teve de ter adiado devido a violência pós-eleitoral que afetou Moçambique, após as eleições presidenciais e legislativas de outubro de 2024. Estas manifestações revelaram uma aguda crise político-social que se saldou em mortes, destruição de patrimônio e num clima de medo, ansiedade e luto.
Segundo o jornal Diário de Moçambique, neste período entre outubro de 2024 e fevereiro de 2025 pelo menos 361 pessoas morreram, incluindo cerca de duas dezenas de menores, de acordo com a plataforma Decide, uma organização não governamental moçambicana que acompanhou os processos eleitorais. O governo de Moçambique confirmou pelo menos 80 óbitos, além da destruição de 1677 estabelecimentos comerciais, 177 escolas e 23 unidades sanitárias durante as manifestações (Diário económico).
As manifestações deixaram a descoberto a situação de pobreza que afeta a maioria dos moçambicanos e as crianças em particular. Segundo a Unicef (2025) cerca de 13 milhões de crianças moçambicanas, num total de mais de 16 milhões, vivem em situação de pobreza, evidenciando desigualdades profundas no país.
A violência afetou praticamente todo o país. Estradas foram fechadas, escolas e hospitais também. Houve episódios de extrema violência protagonizados pelas alas radicais da Polícia e dos manifestantes. Mesmo em suas casas, as crianças não estavam seguras.
Os adultos falharam na sua obrigação de proteger as crianças e em inúmeros casos inclusive permitiram que as crianças se envolvem na violência nas ruas.
Como pode o Congresso “Crianças, Guerra e Persecução” ajudar a sanar estas feridas?
A violência e morte, a intolerância em relação ao “Outro” atingiram níveis assustadores, para parafrasear Fanon (2022), diríamos “apocalípticos”. Parecia que a energia destruidora das trevas coloniais, repetida na guerra dos 16 anos, não tendo sido enlaçada, ressurgia, teimando em produzir novas feridas, mais mortos, mais traumas coletivos, ameaçando seriamente a convivência entre os moçambicanos.
Alguns agentes do Estado, que deveriam proteger a vida, preservar a lei, comportaram-se como o pai da horda, não castrado, que se coloca acima da lei. Este exemplo rapidamente foi seguido também por alguns manifestantes, matando agentes da polícia e outros concidadãos, querendo instaurar a lei do Talião.
Como evitar esta regressão do aparelho psíquico para maneiras de reagir tão primitivas? Como quebrar estes ciclos de compulsão à repetição e reactualização das vivências traumáticas? Como parar as mortes na infância? Ou o ciclo que leva a que as crianças sobrevivam apenas com um legado de destrutividade?
No trabalho de escuta psicanalítica de Ex criança soldada realizada entre 1994 e 2000, a Associação Reconstruindo a Esperança trabalhou com Praticantes de medicina tradicional. Estes usavam os saberes e as práticas da cultura tradicional moçambicana para apoiar a elaboração psíquica e a reintegração das crianças nas suas comunidades. Rituais como o da “lavagem”, através dos quais as crianças eram simbolicamente limpas das atrocidades vivenciadas e em alguns casos praticadas foram usadas pelos Praticantes da Medicina Tradicional.
Durante as manifestações pós-eleitorais a ARES alargou o projeto de “escuta psicanalítica” que decorre em Nacala Porto para abarcar outras crianças e seus pais em diferentes pontos de Moçambique.
Em novembro de 2024, iniciam-se as rodas de conversa “Protegendo a vida e cuidando da saúde psíquica das crianças moçambicanas em tempos conturbados”, que depois se desdobraria também em rodas de escuta aos profissionais de saúde em Moçambique. O projeto “Ombro amigo – Ombro solidário / protegendo as crianças em tempos conturbados” teve como objetivo principal acolher os escutadores nesse momento de conflitos políticos e sociais. Esta iniciativa integrou, além da ARES, profissionais do Círculo Psicanalítico de Moçambique, da Comunidade Psicanalítica de Moçambique, da Associação dos Psicólogos de Moçambique, da Sociedade Brasileira de Psicanalise, assim como psicanalistas brasileiros de São Paulo.
Num segundo momento foram organizadas, pela ARES, “rodas de conversa” em Nacala Porto, “com” pais das crianças, com o objetivo de criar espaços seguros para as crianças ao mesmo tempo que criamos um espaço para escutar as crianças, seus medos e ansiedades.
Como ação coletiva que vai culminar com a realização do congresso, pretendemos continuar e reforçar as ações de proteção da criança, de criação de lugares seguros para as crianças, de iniciativas para enlaçar a destrutividade.
Pretendemos mobilizar outros saberes para além da Psicanálise, como por exemplo das práticas de cura das medicinas tradicionais moçambicanas. Pretendemos chegar a outros atores da comunidade, pais, associações de mães, entre outros.
Trata-se de desafiar e transformar as condições de injustiça social e insegurança que assombram a vida das crianças em Moçambique. Busca-se um outro destino para a pulsão de destrutividade. Neste contexto, a preposição «com» é extremamente importante, pois marca uma mudança clara na conceção do processo de proteção das crianças. Trata-se de envolver os pais, as organizações da sociedade civil transformando a proteção da criança num tema transversal que necessita da participação e apoio de todos.
Trata-se de participar num processo onde se possa recuperar a empatia e a compaixão pela criança. Imaginar e construir um mundo diferente. Uma crítica e transformação epistemológica, ética e metodológica das intervenções em prol da proteção das crianças moçambicanas, num momento em que claramente os modelos usados no passado não trouxeram os efeitos desejados.
Trata-se de convocar mais saberes para este congresso, para esta ação coletiva.